Redução Fenomenológica
- Liga LAPFE
- May 10, 2025
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Por Ana Gutierrez Calil e Marina Guimarães Twiaschor
A redução fenomenológica é o exercício temporário proposto por Husserl para suspender temporariamente seu juízo a respeito da existência ou não do mundo, isto é, entrar em âmbito transcendental, a fim de atingir regras básicas, essenciais e, assim, reduzir o campo intencional do pesquisador o máximo possível. O âmbito transcendental seria portanto, segundo Kant, a necessidade da possibilidade a priori de conhecimento. Dessa forma, é aquilo que está implícito no dia a dia.
A inspiração epistemológica de Husserl é a de não haver distinção entre a consciência e o objeto, como havia sido determinado por Descartes. Ele estabelece que a consciência é sempre a consciência de algo, e se a ciência de algo se der em algum momento, isso será feito na consciência. Portanto, o esforço está em descrever a consciência sobre as coisas, já que a consciência em si é a condição da possibilidade do aprendizado.
Husserl sugere, então, "voltar" às coisas mesmas porque começamos de onde estamos; lugar que implica noções e identidades temporariamente incursas em camadas sedimentadas da consciência estruturada por nossas experiências. Desse modo, nas primeiras fases de suas publicações, Husserl se preocupa com a análise descritiva dos fenômenos e sua correlação com a consciência e suas estruturas; assim como a fundação e elaboração da metodologia correspondente (redução fenomenológica).
A fim de compreender a importância do movimento que Husserl fez para a fenomenologia, devemos entender os argumentos que motivam esta disposição. Ele começa sua crítica às ciências naturais observando que é adotado um certo esforço para "naturalizar" a consciência e a razão, tanto na teoria quanto na prática, sendo que estes são fatores determinantes no que é apreendido e, consequentemente, estabelecido como fato. Assim, em última instância, todo método da ciência experimental leva de volta precisamente à experiência.
A percepção de Husserl é de que vivemos a vida em aceitação, isto é, de uma maneira a não questionar, sendo totalmente absorvidos na crença ininterrupta de nossa vida habitual no mundo. Tomamos como dado a cultura, a gravidade, nossa linguagem cotidiana e outras facetas sem-fim de nossa existência. Tudo isso está presente para cada indivíduo em cada momento, e a epoché é um procedimento pelo qual rompemos com essa aceitação, conforme afirma Dan Zahavi: “tanto a epoché quanto a redução podem, consequentemente, ser vistas como elementos de uma reflexão filosófica, cujo propósito é nos libertar de nosso dogmatismo natural(istico) e nos conscientizar de nosso próprio envolvimento constitutivo, da medida em que todos nós estamos envolvidos no processo de constituição” (ZAHAVI, 2019, p.6).
O exercício da epoché, portanto, funcionaria como uma suspensão, um parênteses, que pretende colocar o mundo fora de validade. Ou seja, suspender uma atitude dogmática, uma crença automática, uma imersão ingênua e não examinada em relação à realidade e ao mundo. Assim ela se constitui como o contrário da atitude natural, isto sendo o que vivemos e estamos imersos em nosso dia a dia e nosso modo de ser e existir próprio, pré-teórico. Nesse exercício de entender a realidade como uma entidade auto-subsistente, assume-se que o mundo que encontramos na experiência também existe independente de nós. Dessa forma, “ao realizarmos a epoché, devemos realizar uma espécie de mudança gestáltica, uma mudança de perspectiva que amplia nossa compreensão, permitindo novas percepções” (ZAHAVI, 2019, p.6).
Trata-se, portanto, de um recurso metodológico usado para investigação dos fenômenos. No entanto, há um erro conceitual recorrente do analista para além do uso investigatório. Este erro acabou popularizando o conceito de epoché erroneamente, uma vez que desconsideram a herança da filosofia fenomenológica que trabalha com a inter-relação objeto-sujeito. Dessa forma. há três diferentes análises que fogem à complexidade da epoché: a primeira a define como a suspensão de pré-conceitos teóricos, interpretações e construções. colocando entre parênteses nossas ideias pré-concebidas, hábitos de pensamento e suposições teóricas a fim de deixar os objetos se revelarem como são.
Em outra análise equivocada defende-se, além da suspensão de todos os elementos já citados, a suspensão também da nossa preocupação habitual e natural com os objetos, mas que ainda assim não é suficiente para compreender a epoché, que é ainda mais complexa. Por mais que essas duas não estejam totalmente erradas, elas carecem de alguns elementos essenciais.
Numa terceira análise, por sua vez bem equivocada, procura-se colocar entre parênteses o mundo existente; não se trata disso, pois a epoché não resulta na abolição do mundo e da realidade. Trata-se de permitir uma descoberta da correlação fundamental entre a mente e o mundo e, assim, podemos pensar sobre o propósito da epoché, que falseia as análises citadas: “Ao suspender esta atitude, e ao dar ênfase ao fato de que a realidade é sempre revelada e examinada de uma ou outra perspectiva, a realidade não se perde de vista, mas se torna, pela primeira vez, acessível para a investigação filosófica.” (ZAHAVI, 2019, p.4). Isto é, o direcionamento para voltar às coisas mesmas.
Bibliografia:
ZAHAVI, Dan. Phenomenology: The basics. New York: Routledge, 2019. [Tradução feita pelas ligantes Ana Calil e Macarena Sfeir para leitura do grupo de estudos da Liga Acadêmica de Psicologia Fenomenológica (LAPFE) da PUC-SP. 2023.]
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