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Intencionalidade

  • Writer: Liga LAPFE
    Liga LAPFE
  • Mar 25, 2025
  • 4 min read

Por Jade Amaral


O conceito de intencionalidade, dentro da fenomenologia husserliana, se mostra como uma noção fundamental, uma vez que aparece como solução para a problemática colocada por Husserl acerca da possibilidade do conhecimento humano. Essa questão se situa em um momento histórico específico, marcado pela crise do pensamento filosófico e das ciências em geral, em que se questiona a validade dos conhecimentos científicos e, desse modo, a busca por um conhecimento basal que fundamente todas as outras ciências. Esse contexto dá origem a uma importante discussão sobre a capacidade cognoscível humana, culminando em uma certa dicotomia: de um lado, preza-se a subjetividade - que afirma que as coisas estão e são constituídas apenas nas ideias, que existem por si mesmas sem a necessidade do mundo exterior -, e do outro a objetividade - que afirma a existência dos objetos por si mesmos, não dependentes do sujeito. Assim, é construída uma forte noção de divisão entre sujeito e objeto, algo que Husserl buscou superar ao conceber uma base filosófica originária, que veio a ser a fenomenologia.

Ora, é verdade que a palavra ‘fenomenologia’ não surge com Husserl, pois seu primeiro uso se deu 1764 com Lambert e foi retomado por Kant em 1770. Hegel o consolidou em 1807, porém, é somente com Husserl que este termo é estabelecido como um movimento filosófico buscando tais objetivos. Desse modo, ao se debruçar sobre a questão da consciência - como ela se relaciona com o mundo e como podemos obter conhecimento e compreensão do que nos rodeia - surge, então, o conceito de intencionalidade, que se apresenta como uma superação do dualismo da época, enquanto um conceito primário, que estabelece uma correlação preexistente entre consciência e mundo, ou seja, uma relação que só existe enquanto relação, não existindo os elementos “consciência” e “mundo” separados para então eles se relacionarem. Não, ambos só existem enquanto correlação.

De novo, o conceito de intencionalidade não surge totalmente de Husserl, mas sim com seu professor F. Brentano, importante filósofo e psicólogo, além de ter sido o responsável por converter Husserl da Matemática à Filosofia. Porém, segundo Brentano, o objeto intencional seria imanente à consciência. Ou seja, embora já pensada enquanto abertura, a intencionalidade, para Brentano, seria psíquica, estaria dentro do sujeito. Husserl, por outro lado, modifica esse conceito, levando-o “para fora”, transformando-o em consciência transcendental, o que nos leva à intencionalidade propriamente husserliana (Goto, 2014). 

Apresentada enquanto a correlação apriorística entre consciência-mundo e sujeito-objeto, a intencionalidade é o conceito originário do conhecimento, sendo o que permite estabelecer o mundo na consciência. Mas afinal, o que isso nos diz? Que, ao contrário do que se afirma nas duas principais correntes filosóficas (idealismo e racionalismo) da época, a consciência não existe em si mesma e muito menos os objetos externos. Ou seja, consciência e objeto não são duas entidades separadas na natureza que precisam ser postas em relação posteriormente. Em vez disso, Husserl entende que a consciência e objeto se definem respectivamente a partir desta correlação que lhes é, de alguma maneira, cooriginal.

Portanto, a intencionalidade representa esse direcionamento em relação ao objeto. A consciência é sempre consciência de alguma coisa, e o objeto está sempre direcionado a uma consciência. Sem essa relação consciência-objeto, não haveria nem consciência nem objeto. Isso não significa que o objeto está contido na consciência como se estivesse dentro de uma caixa a partir daquilo chamado de “representação”, mas sim que só possui seu sentido de objeto em relação a uma consciência. Em outras palavras, isso se trata de uma relação de co-dependência, a relação entre sujeito e objeto. Dessa forma, é compreendido que a consciência sozinha não existe.

Então, ao imaginarmos, pensarmos, lembrarmos, enfim, todos esses atos da consciência se referem a alguma coisa, eles não existem isolados, Isto é, eu não tenho primeiro o ato de imaginar sozinho, para então ter a coisa imaginada, por exemplo. Eles se dão de forma simultânea, só sendo possível nessa relação originária. O pensar só se revela enquanto pensar se tiver coisa pensada, e isso é válido para todos os outros atos da consciência. Em resumo, consciência é sempre consciência de alguma coisa.

Ainda, ao afirmar que a consciência dá sentido ao fenômeno, não se está sugerindo que a mente enquanto instância psíquica molda o mundo observado, mas sim como um processo que permite a manifestação desse mundo tal como ele se mostra, ou seja, tal como ele é. Dessa maneira, Husserl, ao falar sobre a necessidade do retorno às coisas mesmas, critica a tradição filosófica ocidental que coloca o conhecimento verdadeiro para além do objeto, como se este por si mesmo fosse falso e enganador. Assim, ele propõe esse retorno ao que aparece, situando o fenômeno como a própria coisa revelada à consciência.

Além disso, Husserl, ao colocar o conceito de intencionalidade como abertura, sempre voltada e referindo-se a alguma coisa, introduz a possibilidade de modificação dessa referência. Isso, por sua vez, dá origem ao desenvolvimento dos conceitos de ‘atitude natural’ e ‘epoché’ (Pires, 2012).

Levando em consideração o que foi dito, vê-se a importância do conceito de intencionalidade na fenomenologia, visto que é o que permite estabelecer o mundo na consciência. Em um contexto no qual o conhecimento era tido como externo ao sujeito ou algo existente apenas nele, Husserl redefiniu esses dois aspectos como coexistentes em uma correlação essencial. A partir daí, podemos identificar algumas características centrais no conceito de intencionalidade: ela define a natureza da consciência, garantindo que a consciência sempre esteja direcionada a algo; estabelece uma correlação fundamental entre consciência e fenômeno; e, por fim, a intencionalidade se manifesta como a doação de sentido (Pires, 2012). Portanto, é possível vislumbrar que um dos objetivos centrais da fenomenologia de Husserl é a descrição detalhada dessa correlação entre os atos da consciência e seus objetos visados. “A tarefa efetiva da fenomenologia será, pois, analisar as vivências intencionais da consciência para perceber como aí se produz o sentido dos fenômenos, o sentido desse fenômeno global que se chama mundo” (Dartigues, 2005, p. 26 apud. Pires, 2012). 


Referências

GOTO, Tommy Akira. Parte I - Introdução à Fenomenologia e a Psicologia Fenomenológica. YouTube, 08/09/2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_RR9dHtF3e4&ab_channel=Prof.TommyGoto-PsicologiaFenomenol%C3%B3gica.


PIRES, Jesuino Junior. Considerações sobre o conceito de intencionalidade. Kínesis, [S.I.], v. 4, n. 07, p. 286-302, jul. 2012.



 
 
 

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