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Intersubjetividade

  • Writer: Liga LAPFE
    Liga LAPFE
  • Apr 3, 2025
  • 3 min read

Por Nina Lian Leite


A fenomenologia, enquanto abordagem bastante difusa, apresenta relatos a respeito da intersubjetividade também distintos e por vezes opostos. Entretanto, existem pontos de partida em comum dos diferentes autores. A busca para descobrir outras formas de intersubjetividade (extra ou pré-linguísticas) é um deles, assim como a percepção de que é uma relação entre os sujeitos e deve ser analisada a partir de uma perspectiva de primeira pessoa e a interconexão entre “eu”, “outro” e o “mundo” para sua plena compreensão.

Edmund Husserl, em sua V Meditação Cartesiana, analisa que a forma que apreendemos um objeto é diferente da forma que o fazemos com outra pessoa: enquanto com uma garrafa, podemos primeiramente observar a parte da frente e em seguida a de trás a fim de a conhecermos por inteiro (ainda que não possamos ver todas as suas partes no mesmo instante), somos incapazes de fazer isso com aqueles à nossa volta: conhecer alguém não é tão simples quanto observar o seu semblante. Existe algo que não é perceptível visualmente: sua consciência. Para ele, o outro é um alter ego, aparecendo por meio de uma co-apresentação, uma analogia, ligada à apresentação, em que as coisas são dadas à consciência de forma imediata. Desse modo, somos capazes de entender que este outro, apesar de não sermos iguais, é semelhante a mim.

  Muitos fenomenólogos, como Merleau-Ponty e Max Scheler, criticam o argumento da analogia como forma de compreensão do outro, isto é, a ideia de que só seríamos capazes de apreender o outro ao pensar que seu corpo poderia funcionar de forma semelhante ao meu, associando a experiência dele àquelas que vivi anteriormente. Segundo eles, isso exigiria uma observação primeira de si próprio para inferir a respeito da existência do outro: se me machuquei e chorei ao cair da bicicleta presumo, ao ver alguém caindo de sua bicicleta e chorando, que essa pessoa também se machucou. Isso, no entanto, não é a realidade de bebês, por exemplo. Ao reagirem às expressões faciais de outrem, não refletem a respeito de situações em que eles próprios se expressaram dessa maneira, ainda que compreendam esta outra pessoa.

Da mesma forma, entende-se também que essa forma analógica de perceber o outro nos levaria a uma perspectiva bem mais globalizada das experiências alheias, ao compararmos nossas expressões às de outra pessoa. Um movimento físico perderia a possibilidade de ser uma expressão mais abrangente dos sentidos e tornar-se-ia apenas um ponto de semelhança entre o eu e o outro: se grito de dor, o grito do outro deve significar o mesmo.

Diante disso, alguns autores sugerem que a empatia seria um novo tipo de intencionalidade, diante do qual seria possível compreendermos o outro (num sentido bastante distinto do que costumamos entrar em contato, da compaixão e simpatia). 

“Na opinião deles, é possível obter um conhecimento da vida experiencial do outro no encontro empático face a face que tem um caráter direto e imediato que não é compartilhado por quaisquer crenças que você possa ter sobre o outro na ausência dele/dela.” (ZAHAVI, 2019, p. 5). 

Todavia, existe ainda uma diferença perceptível entre experienciar algo e entender o que outra pessoa experiencia, o que seria um contraponto ao pensamento de que ocorre uma transmissão literal da experiência do outro na própria mente. (ZAHAVI, 2019, p. 5). Somos incapazes de experienciar o outro da mesma forma, ipsis litteris, que ele experiencia. Isso porque, a empatia da qual se referem os fenomenólogos não busca uma diluição da diferença entre eu-outro e a forma que apreendemos o mundo, essa diferença nos ensina precisamente que existe este outro. É essencial, portanto, compreender que o outro tem seus próprios significados em relação às experiências que vive. Mesmo que nos relacionemos com ele experiencialmente, sua alteridade faz com que ele exceda o nosso entendimento. Logo,

“É precisamente por causa da ausência de um acesso experiencial a outras mentes que precisamos confiar e empregar tanto inferências teóricas quanto simulações internas. Em contraste, os fenomenólogos insistem precisamente que podemos experimentar o outro diretamente como um ser mental, como um ser cujos gestos e ações corporais são expressivos de suas experiências ou estados mentais.” (ZAHAVI, 2019, p. 6)


Referências bibliográficas:

ANDERSON, Ellie. Derrida on Husserl's Phenomenology of Intersubjectivity SPEP conference presentation. 2022. Disponível em: Derrida on Husserl's Phenomenology of Intersubjectivity SPEP conference presentation

PELIZZOLLI, Marcelo Luis. A intersubjetividade em Husserl e em Levinas. Porto Alegre, 1996.

ZAHAVI, Dan. Phenomenology: The basics. New York: Routledge, 2019. [Tradução por Macarena Sfeir, feita pela Liga Acadêmica de Psicologia Fenomenológica da PUC-SP.2023]



 
 
 

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