A Crise das Ciências por Husserl
- Liga LAPFE
- Feb 28, 2025
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Por Jenniffer de Almeida Silva e Sofia Stella Ogawa Castilho
Introdução
Edmund Gustav Albrecht Husserl nasceu no seio de uma família judaica em 1859, na região da Morávia, – parte, na época, do Império Austríaco que viria a se tornar em 1867 Império Austro-Húngaro – atual República Tcheca. Estudou matemática em Leipzig, Berlim e por fim Viena, onde defendeu sua tese de doutorado “Contribuições ao Cálculo das Variações” (Beiträge zur Variationsrechnung). Ainda em Viena se forma em filosofia, e, inspirado por Franz Brentano, escreve trabalhos como, “Sobre o Conceito do Número Zero” (Über den Begriff der Zahl) e “Filosofia da Aritmética” (Philosophie der Arithmetik), se debruçando na interseção entre a filosofia empírica e a matemática. Em 1887, ele passa a se dedicar à docência, sendo professor de grandes autores como Edith Stein e Heidegger. Porém a legislação antissemita, implementada pelo regime nazista no mesmo ano, o impedia de lecionar e de ter acesso à biblioteca de Freiburg, mesmo que o acadêmico fosse um judeu convertido ao luteranismo desde 1886.
O autor viveu num período de transição entre séculos de grandes instabilidades políticas no mundo, como o neocolonialismo, as Grandes Guerras, a Revolução Russa, a ascensão e os horrores do fascismo italiano e do nazifascismo alemão. Além disso, foi um momento de inovação científica, desde a forma de produção alterada para sempre pelo maquinário e eletricidade até teorias e descobertas que romperam radicalmente com os paradigmas anteriores — Darwin e sua teoria das espécies, Mendel e seus estudos sobre a genética, Dalton e o átomo da bola de bilhar, Curie e a radioatividade, como tantas outras.
Nas humanidades perspectivas novas também floresciam. Comte inaugura o positivismo e seu evolucionismo social, que logo passa a integrar o paradigma político e epistemológico da Europa, ganhando força em diversos setores sociais, dos militares aos acadêmicos. As principais características desse movimento são a oposição ao racionalismo e ao idealismo, e a compreensão de que uma ciência objetiva e neutra, baseada na experimentação e quantificação, seria a única forma verdadeira de obter conhecimento. A lente comteana de análise central do positivismo é a lei dos três estados, que enxerga a história como uma evolução no sentido de progressão qualitativa a partir de três estágios: teológico, metafísico e positivo. O primeiro e menos evoluído estado seria o teológico, no qual a sociedade busca seu conhecimento através da religião, superstição e crendices. O segundo seria uma espécie de meio-termo entre o último e o primeiro estágio, no qual as antigas divindades são substituídas por ideais abstratos usados para explicar fenômenos naturais e sociais. Por fim, o estado positivo seria caracterizado pelo pensamento científico baseado em observação, experimentação e método empírico, através de explicações fundamentadas em leis naturais estabelecidas anteriormente pelo método.
Por que Husserl fala em Crise da Ciências?
A questão que fica, afinal, é: por que Husserl fala numa crise das Ciências? À qual conceito de ciência ele se refere? E qual a solução dada a este problema? Para conseguirmos responder a essas questões achamos interessante antes pensar numa linha do tempo com a história da Ciência.
Na Idade Média, apesar da ideia errônea de ter representado um período de estagnação intelectual – motivada, principalmente, pela Igreja e pelos dogmas cristãos – havia não só um grande interesse pela ciência como também uma vasta produção acadêmica. No entanto, é preciso apontar que as explicações das coisas e do mundo ainda estavam pautadas numa junção de fé e razão. Os primeiros expoentes dessa filosofia medieval são Santo Agostinho de Hipona, representante da Patrística que surge no século IV e posteriormente, no século IX, São Tomás de Aquino com a Escolástica. Em ambos há um resgate da filosofia grega, porém enquanto Tomás de Aquino tem influência do realismo aristotélico, os estudos de Santo Agostinho estavam voltados para o idealismo de Platão.
O Renascimento, momento no qual há uma passagem do sistema feudal para o capitalismo durante o século XV, é marcado por um resgate mais autêntico da Antiguidade Clássica Greco-Romana na medida que resgatam obras e conhecimentos que haviam sido negligenciados durante a Idade Média (Damião, 2018). No entanto, é preciso um olhar crítico para a ideia de que o paradigma cristão adotado na Idade Média fora agora completamente abandonado no que tange à fé, uma vez que os grandes pensadores, artistas, burgueses ainda eram extremamente religiosos.
[...] o Renascimento não marcou uma ruptura inconciliável entre ciência e religião, uma não se tornou o oposto da outra em termos epistemológicos, como o reducionismo historiográfico da modernidade positiva assumiu; pelo contrário, durante a renascença, ciência e religião caminharam lado a lado, inclusive esta foi fundamental para o desenvolvimento daquela durante os séculos da modernidade. (DAMIÃO, 2018, p. 1-2)
Um traço marcante desse período é o racionalismo, filosofia que acredita que a única forma pela qual o ser humano pode chegar a algo verdadeiro conhecimento é através da razão. Como consequência, gradualmente passou-se a compreender o universo de maneira calculada e matemática, deixando de lado o teocentrismo e o misticismo. Surge então Francis Bacon, que propõe que o cientista, a partir da experiência, deve primeiro obter informações suficientes sobre o objeto de estudo e depois, mediante a razão, elaborar noções gerais e leis naturais. A partir de Bacon, podemos dizer que se funda a Ciência Moderna. (Damião, 2018) Outros nomes que também fazem parte desse momento são Galileu Galilei, Isaac Newton, e René Descartes.
Posteriormente no início do século XIX, surge na França o Positivismo, do qual Auguste Comte é precursor. Acerca da origem da corrente, Conceição (2006) diz:
O positivismo surgiu do interesse de Comte em libertar o homem das crenças religiosas e da especulação metafísica, calcada na objetividade, de tal forma que a sociedade deveria ser encarada como objeto de pura observação e considerava pura pretensão a busca pela verdade absoluta ou a idéia de sociedade justa. Como veremos, Comte se vinculou a todo aquele grupo de sua geração que pretendeu reformar a sociedade e organizá-la sobre novas bases. O positivismo foi uma destas correntes de pensamento que disputou os corações e as mentes opondo-se ao liberalismo e ao socialismo (CONCEIÇÃO, 2006, p.45).
É importante destacar que Comte critica o movimento do idealismo clássico alemão vigente na época, principalmente no que diz respeito ao aspecto especulativo. O autor, por outro lado, propõe a observação dos fatos, pregando a submissão da imaginação à observação. Dessa maneira, as quatros principais características que fundamentam o positivismo são: objetividade e neutralidade, experimentação, quantificação e lei dos fatos. Assim, todo conhecimento científico verdadeiro deve ser objetivo de maneira que não haja nenhuma interferência do pesquisador; ser calcado na experimentação e poder ser mensurável; haver uma lei universal que determina a ocorrência do fenômeno estudado. (GIL, 2008)
Retomando brevemente esse antecedente da história das ciências, podemos então continuar a desenvolver a Crise que Husserl aponta. É interessante destacar que o autor é um grande crítico da ciências positivas, não somente aquela de Comte e seus precursores, mas na verdade aquela que se inicia com Galileu Galilei, dado que ali já houve uma certa matematização da natureza deixando de lado a intuição geométrica, por exemplo. Acerca das ciências positivas, Husserl (1976) afirma:
As meras ciências de fatos criam meros homens de fatos. A revolução da atitude geral do público foi inevitável, especialmente após a guerra, e sabemos que na mais recente geração ela se transformou até mesmo em um estado de ânimo hostil. Na miséria da nossa vida – ouve-se dizer – esta ciência não tem dada a nos dizer. Ela exclui por seu próprio princípio aqueles problemas que são os mais pungentes para o homem, o qual, nos nossos tempos atormentados, sente-se à mercê do destino; os problemas do sentido ou não-sentido da existência humana como um todo. (Husserl, 1976, p.4)
Segundo Azevedo (2011) a pergunta colocada pelo filósofo é: a ideia clássica de ciência, a ideia de ciência que nasce no mundo grego – com Aristóteles, Platão etc. – e que atravessou milênios, é possível? No entanto, é importante destacar que Husserl, ao fazer esse questionamento, não pretende desvalorizar a obra desses autores que operam no âmbito da atitude natural, no qual operam as ciências exatas e objetivas, mas sim recuperar a compreensão transcendental para o método científico. Isso se dá uma vez que, segundo Husserl, sem essa compreensão transcendental não se pode atingir uma verdadeira compreensão dos fenômenos do mundo.
Esses cientistas (...) vêem a correspondência de alguns efeitos, mas não sabem a motivação dessas leis. Isso é demonstrado pelo fato de que o homem organiza algumas hipóteses que, em seguida, define como leis, porque fazem parte daquele contínuo cotidiano no qual a natureza acontece. Porém, depois é ausente do ponto fundamental do seu viver e, tranquilamente, passa a definir “mistério”, onde ele é concretamente vivente. (MENEGHETTI, 2010, p. 107)
Para Husserl pode-se afirmar que não apenas a psicologia e a filosofia estão em crise, mas sim as ciências como um todo (AZEVEDO, 2011). Isso se dá uma vez que a ciência que se tem na época desconsidera qualquer forma de subjetividade, com a intenção de se atingir a neutralidade, fazendo com que na prática ela não tenha nada a dizer sobre os problemas tipicamente humanos. Dessa maneira, o que se vê são ciências humanas ou as chamadas na época de ciências do espírito (Geistwissenschaften), se valendo do modo das exatas para se “consolidar” enquanto ciência verdadeira. No que diz respeito a crise da filosofia, Husserl (1976) discorre:
Todos esses problemas metafísicos, entendidos no modo mais amplo possível, os problemas especificamente filosóficos no sentido corrente, ultrapassam o mundo enquanto universo de meros fatos. Ultrapassam-no exatamente enquanto problemas que miram à idéia da razão. E todos eles pretendem uma maior dignidade com relação aos problemas que concernem os fatos, os quais são subordinados a eles também com referência à ordem na qual se dispõem. O positivismo decapita, por assim dizer, a filosofia. (Husserl, 1976, p.7)
(...) a crise da filosofia equivale a uma crise de todas as ciências modernas enquanto ramificações da universalidade filosófica; ela torna-se uma crise, primeiramente latente e depois cada vez mais claramente evidente, da humanidade européia, do significado global da sua vida cultural, da sua global existência. (Husserl, 1976, p.10)
A solução: A Fenomenologia
Levando em consideração o que foi discutido acima sobre acerca do método das ciências da natureza não necessariamente ser o único a nos trazer conhecimento verdadeiramente definitivo, Husserl (1976) propõe uma compreensão transcendental, ou seja, a necessidade da possibilidade a priori de conhecimento. Partindo do transcendental, aquilo que não é empírico, mas ainda se dá e existe, o filósofo pensará nas estruturas básicas que sobram quando se suspende a existência do mundo.
É preciso conseguir finalmente compreender que nenhuma ciência exata e objetiva explica seriamente, nem pode explicar, coisa alguma. Deduzir não equivale a explicar. Prever, ou ainda, reconhecer e depois prever as formas objetivas da estrutura e dos corpos químicos ou físicos – tudo isso não explica nada, antes, tem necessidade de uma explicação. A única real explicação é a compreensão transcendental. O saber em torno à natureza, que é próprio das ciências naturais, não equivale a um conhecimento verdadeiramente definitivo, a uma explicação da natureza, porque as ciências naturais não indagam a natureza na conexão absoluta na qual o seu ser próprio e real desdobra o seu sentido de ser; as ciências naturais jamais enfrentam tematicamente o ser da natureza. Com isso, não se quer de fato desvalorizar a grandeza dos gênios criativos que operaram no seu âmbito na atitude natural, e a própria atitude natural, não devem de fato ser perdidos pelo fato de serem compreendidos, por assim dizer, na esfera do ser absoluta na qual definitiva e verdadeiramente são. (Husserl, 1976, p. 193)
Neste contexto, surge a Fenomenologia que tem como proposta uma nova atitude e consequentemente um novo método. Buscando o “sentido íntimos das coisas”, tal como o fenômeno de mostra à consciência, a Fenomenologia adota uma postura reflexiva e analítica.
A fim de sintetizarmos a Crise, nos valemos de uma esquematização feita por Erico Azevedo (2011) em sua tese de mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
A estrutura lógica da “Crise”:
Fazer ciência é enfrentar o problema do ser - um problema evidentemente filosófico, ontológico - ou de um setor/região do ser. Assim, a verdadeira compreensão científica, para Husserl, é uma compreensão filosófica, transcendental.
A verdadeira “ciência rigorosa” - como a época se nomeava o método positivo - , portanto, é a filosofia, e não a física, a matemática ou a lógica, as quais precisam de um fundamento último na epistemologia, parte da filosofia.
A filosofia, portanto, como o núcleo do acúmulo de conhecimento metodológico deve exercer fortemente um papel “fundante” no quadro das ciências, deve saber centrar e resolver o problema transcendental.
Husserl demonstra, por meio de análises histórico-teleológicas, que o problema transcendental não havia até então sido tratado adequadamente pela filosofia e sim sido envenenado por milênios de pré-juízos.
Os pré-juízos históricos ocultaram o verdadeiro problema transcendental, enquanto ocultaram o “mundo-da-vida”, que restou um mundo anônimo de fenômenos jamais investigados.
Foi preciso, na história da filosofia, o trabalho da fenomenologia, uma verdadeira análise intencional, para desvelar o “mundo-da-vida”.
Husserl estudou ao longo de sua vida algumas vias para realizar a filosofia fenomenológica transcendental. Na “Crise”, supera de certo modo a assim chamada “via cartesiana”, privilegiando a via do “mundo-da-vida” e a via da “psicologia”, que, porém, não pode ser uma psicologia nos moldes das ciências objetivas exatas, uma psicologia cindida da filosofia.
Referências
AZEVEDO, Erico de Lima. “A Crise das Ciências Européias e a Fenomenologia Transcendental” de Edmund Husserl: uma apresentação. 2011. 126 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011.
CONCEIÇÃO, G. H. da. Positivismo, política e educação: notas acerca do pensamento político Comtiano. Temas & Matizes, n° 09, 2006, p.43-56
DAMIÃO, Abraão Pustrelo. O Renascimento e as origens da ciência moderna:
Interfaces históricas e epistemológicas. História da Ciência e Ensino, São Paulo, V. 17.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 2008.
HUSSERL, E. A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental: Uma Introdução à Filosofia Fenomenológica. 1976
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