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Introdução + Husserl Vida e Obra

  • Writer: Liga LAPFE
    Liga LAPFE
  • Feb 28, 2025
  • 6 min read

Por Macarena Sfeir


Olá, seja bem-vinde à nossa seção de conhecimento a respeito da fenomenologia!


Um dos objetivos com os quais a LAPFE se compromete é o de tentar sempre democratizar o conhecimento a respeito da fenomenologia. Sabendo também que existem muitas perguntas sobre a nossa área, dedicamos este espaço para produções escritas pelas pessoas que frequentaram nosso grupo de estudos no primeiro semestre de 2023.

Trata-se do primeiro semestre da existência na nossa querida LAPFE e, consequentemente, do semestre em que o grupo de estudos surgiu! Levando em consideração que nunca tínhamos estudado nada de fenomenologia enquanto liga, consideramos importante começar no começo, com o pai da fenomenologia, Edmund Husserl. Nos apropriamos das ideias de Husserl através de diversos autores, mas principalmente através dos escritos de Dan Zahavi em seu livro “Phenomenology: The basics”, cujos capítulos utilizados nas nossas leituras foram traduzidos por integrantes da pasta de Ensino e Pesquisa e estão disponíveis para ligantes da LAPFE.

Os textos que seguem, assim, refletem e aprofundam nossos estudos numa tentativa de aproximar as pessoas leitoras da nossa trajetória de construção de conhecimento na liga, tornando possível o fácil acesso de informação e proporcionando maior entendimento a respeito dos conceitos propostos pelo Husserl.

No segundo semestre de 2023 nos aproximamos do sucessor do Husserl, Martin Heidegger e gostaríamos de poder produzir conhecimento a respeito dele também após o fim do semestre.

Esperamos que fiquem à vontade para ler e, sempre que queiram, entrem em contato com a gente para tirar dúvidas! Sempre que possível iremos nos comprometer com a formulação de respostas a serem retornadas à comunidade, seja pelo Instagram ou por meio deste blog.


Boa leitura!


Quem era Edmund Husserl e qual era seu contexto histórico?


Quem já entrou em contato com a fenomenologia sabe que esta é matéria da filosofia e que foi importada para a psicologia apenas no século passado. De fato, quem formulou a fenomenologia num primeiro momento foi Edmund Husserl, autor que é até hoje considerado o pai da fenomenologia. Isto não porque ele tenha inventado o conceito de fenômeno ou porque as ideias que ele teve foram completamente novas e inusitadas – algumas o foram, sim -, mas porque ele foi o primeiro filósofo a conseguir conceituar a fenomenologia enquanto uma tentativa de definição da base das ciências.

Não entrarei aqui em detalhe para falar sobre essa pretensão, já que isto será abordado em outro texto mais para a frente, mas vale ressaltar que, na filosofia, cada pessoa que faz filosofia está sempre tentando formular uma tese a respeito de algum problema que está sendo colocado a ele (PORTA, 2004). Qual era esse problema para Husserl e suas implicações será abordado no próximo texto.

Ainda assim, pode ser interessante perguntarmos também: Quem foi esta pessoa? Como foi sua vida? E como sua vida influenciou a sua obra?

Assim, podemos formular: Quem foi Edmund Husserl?

Edmund Husserl nasceu em 8 de abril de 1859 na Moravia, atual território pertencente à República Tcheca. Por mais que ele não tenha nascido na Alemanha, é preciso levar em conta que na época em que Husserl era jovem, a Moravia passou por momentos de germanização de suas terras, seu povo e seus conhecimentos, tendo, por exemplo, em alguns momentos Viena como capital. Há vários autores que viveram na Morávia no mesmo momento histórico, como por exemplo Freud, Mendel e Mach, além de Schindler (que salvou 1.200 judeus durante a segunda guerra mundial e sobre quem foi feito o famoso filme “A lista de Schindler”!).

Durante a sua vida, Husserl casou-se com Malvine Steinschneider, com quem teve três filhos. Estudou astronomia, além de matemática, física e filosofia em Leipzig, na atual Alemanha. Assistiu, nesse momento, também aulas de Wilhelm Wundt – hoje considerado o pai da psicologia - e teve contato com Masaryk, discípulo de Brentano. O último sempre insistiu que Husserl fosse estudar com Brentano, uma ideia que este iria seguir apenas depois de anos, mas que iria representar uma mudança de perspectiva e foco na vida e na obra de Husserl.

Antes dos 26 anos de idade, Husserl dedicou seus estudos principalmente à matemática, escrevendo um doutorado sobre a teoria da variação em Viena e em seguida em Berlin, trabalhando junto a Weierstrass. Foi apenas quando Weierstrass ficou doente que Masaryk conseguiu convencer o amigo de estudar filosofia com Frantz Brentano que, entre outras coisas, foi o primeiro a conceituar intencionalidade.

As aulas de Brentano são descritas por Husserl como altamente inspiradoras e o momento em que ele entra em contato com Brentano é tido como muito importante, já que este autor introduz várias ideias ao pensamento de Husserl e o leva a interessar-se também pela psicologia.

Em 1891, Husserl publica uma monografia em que pretende fundamentar psicologicamente a aritmética e recebe diversas críticas, a principal vindo da parte de um autor chamado Frege, que acusa seu texto de psicologismo. Para compreender o que é psicologismo e quais são as suas implicações, é recomendável ler o próximo texto, que irá aprofundar-se exatamente nisso. Para o propósito deste texto biográfico podemos colocar de forma simplificada: O psicologismo incorre numa série de problemas em termos de fundamentação filosófica. Porém, incorrer em psicologismos era comum para os autores da época.

A crítica de Frege foi levada muito à sério por Husserl, que se dedicou a achar uma solução para o problema posto pelo colega. Ele passa a escrever ele mesmo críticas ao psicologismo e tenta achar alternativas teóricas satisfatórias para responder ao problema.

É assim que Husserl formula, pela primeira vez, a fenomenologia em suas Investigações Lógicas (1900/1901). O conceito de fenomenologia, a partir deste momento, iria passar por diversas modificações até chegar naquilo que é chamado de fenomenologia transcendental, conceito que também será abordado em outros artigos produzidos pelo grupo de estudos da LAPFE.

Os principais conceitos da fenomenologia foram pensados por Husserl na primeira década do século XX, numa cidade que hoje em dia encontra-se na Alemanha, Göttingen. Este processo foi acompanhado e admirado por Dilthey. Outros autores que influenciaram Husserl foram Descartes, Hume e Kant.

Em 1916, Husserl passa a dar aula na Universidade de Freiburg, onde ele permanece até aposentar-se em 1928, momento em que ele é sucedido por um de seus assistentes, Martin Heidegger. O último tinha sido seu aluno durante diversos anos e o fato de ser o sucessor de Husserl foi algo que tinha sido prometido anteriormente e que Hussel cumpriu quando chegou a hora da sua aposentadoria.

Em 1922, Husserl dá algumas aulas em Londres e, em 1929, é convidado para palestrar em Paris. O manuscrito deste último evento é publicado em 1931, sob o título Meditações Cartesianas, e representam uma esquematização importante dos seus principais conceitos.

Infelizmente, Hitler toma conta da Alemanha em 1933. Vale ressaltar aqui que Husserl, por mais que convertido ao protestantismo, era de família judia e que o parâmetro para o genocídio praticado pelos nazistas em relação aos judeus não se baseava nas suas crenças pessoais e sim na sua ancestralidade. Assim, com a tomada do poder pelo partido nacional-socialista, Husserl passou a ser cada vez mais humilhado pelo seu entorno. No mesmo ano em que Hitler assumiu o poder, Husserl teve de deixar a academia de forma forçada e todos os seus privilégios acadêmicos foram retirados.

Foi nesse mesmo ano que Heidegger foi nomeado reitor da Universidade de Freiburg pelo partido nazista, tornando-se também seu membro. Não pretendo aqui adentrar nos detalhes do nazismo de Heidegger, já que isto pode ser interessante para os escritos publicados após o segundo semestre, em que estudaremos este autor. No entanto, parece-me importante ressaltar estes acontecimentos como pertencentes também à vida de Husserl. Eles foram acompanhados pelo grave desapontamento de Husserl em seu antigo assistente e pela quebra dos dois acadêmicos. Isto vinha anunciando-se desde a publicação de Ser e Tempo em 1927, momento a partir do qual Heidegger começou a posicionar-se de forma por vezes ambígua por vezes abertamente desrespeitosa com o seu antigo professor.

No entanto, é interessante apontar também que neste momento Heidegger ainda não sabia que Husserl vinha de família judia. Ele apenas passa a saber disso em 1939, momento em que ele elenca a sua crítica à filosofia de Husserl à sua ascendência judaica. Em 1936, o nome de Husserl é oficialmente retirado da lista de docentes da faculdade e ele é proibido de fazer publicações acadêmicas. 

Dois anos mais tarde, aos 79 anos de idade, Husserl falece por pleurisia, uma inflamação aos pulmões.

A vida de Husserl, por mais que conturbada, nos dá várias dicas a respeito da formação de seu pensamento e conhecer sua trajetória pode nos ajudar a compreender não apenas o seu pensamento, mas também a relevância dele para as discussões acadêmicas da época. Fato é que Husserl dá uma resposta importante e necessária aos problemas epistemológicos da época e, por isso, sua teoria é posteriormente discutida e adotada na filosofia e também em outras áreas, como a psicologia e a sociologia. Hoje em dia, podemos encontrar escritos baseados na fenomenologia de Husserl até na arquitetura, no paisagismo e no direito.


Fontes:

BEYER, Christian. Edmund Husserl. The Stanford Encyclopedia of Philosophy, (Winter 2022 Edition), Edward N. Zalta & Uri Nodelman (eds.), 2022. Acesso em 12 ago 2023. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/husserl/#PheEpo.


FARBER, Marvin. Edmund Husserl e os fundamentos de sua filosofia. Rev. abordagem gestalt., Goiânia, v. 18, n. 2, p. 235-245, dez.  2012. acessos em 14  ago 2023. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672012000200014&lng=pt&nrm=iso.


HERSKOWITZ, Daniel M. The Husserl-Heidegger Relationship in the Jewish Imagination. Jewish Quarterly Review, University of Pennsylvania Press, v. 110, nr. 3, Summer 2020. p. 491-522. Acesso em 14 ago 2023. Disponível em: https://ora.ox.ac.uk/objects/uuid:39f4f002-b1cb-4738-b97e-fbc13123f548/download_file?file_format=application%2Fpdf&safe_filename=Herskowitz-2020-The-Husserl-Heidegger-relationshop--.pdf&type_of_work=Journal+article.


 
 
 

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